Dedicado ao Dr. Frederico Cardigos, pela sua explicação "extraordinariamente" inquietante dada hoje ao Atântico Expresso. Não menos extraordinário é o facto da comunicação social não fazer as perguntas incómodas, nem questionar outras alternativas aos aterros que não a incineração (ah perdão, o termo politicamente correcto é valorização energética). Afinal temos que dar a mão à palmatória: o Dr Frederico tinha a lição muito mais bem estudada, ou não fosse o seu mestre Álamo Menezes.
E atenção que isto não é uma questão pessoal. Eu fui das que acreditou nessa equipa e nesse projecto. Desiludi-me. Talvez seja um dos desígnios modernos da politica: desiludir aqueles que um dia acreditaram neles.
Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
Maiakovski (1893-1930)
Depois de Maiakovski… Escreveu Bertold Brecht (1898-1956)
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo
E, hoje, indignada, escrevo:
Primeiro eles cortaram as árvores, mas como não eram minhas eu não me importei.
Em seguida rodearam as praias, as baías e as lagoas de betão, mas como havia o futebol, as touradas e os festivais, não me incomodei.
Depois deixaram o nosso mar a saque porque as vacas parecem ser sempre mais importantes, mas como até gosto mais de carne do que de peixe, não me incomodei.
Depois rasgaram montanhas, violaram Fajãs, abriram feridas na paisagem, mas como disseram que era progresso, eu não me importei.
Agora querem incinerar o lixo, contaminar o nosso ar puro, comprometer a saúde dos açorianos, e fazer-nos acreditar que isso é tudo muito bom, mas como até dá trabalho separar o lixo e porque é Verão, e temos todos mais que fazer, ninguém se incomoda, ninguém se importa, ninguém faz nada.